[O diário de um suicida]

[O diário de um suicida]

Um dia.

Dois dias.

Três dias.

(E nada de novo acontece.)

Quatro dias.

Cinco dias.

(Devo fazer uma lista do que me desagrada, mas como colocar em poucas palavras o que ocuparia um livro inteiro?)

Seis dias.

Sete dias.

(E me esforço para tentar ser simpático, mas tudo é em vão.)

Oito dias.

Nove dias.

Dez dias.

(E mais uma crise de choro, e mais uma vez a crença irreparável de que nada dará certo e o que restam são o vazio e a morte.)

Onze dias.

Doze dias.

(E, enfim, um pouco de calma: consigo o que quero. Mas será que é o suficiente? Não, não…)

Treze dias.

Quatorze dias.

Quinze dias.

Dezesseis dias.

(E é tudo a mesma coisa: a mesma viagem de ida e volta para o mesmo lugar, sempre com as mesmas carrancas antipáticas me encarando a todo o momento.)

Dezessete dias.

(E observo como as pessoas me olham esquisito: será que causo uma repugnância tão grande nelas? Será que sou tão medíocre a ponto de não conseguir mudar absolutamente nada do meu sofrimento?! Sim… Eu sou…)

Dezoito dias.

Dezenove dias.

Vinte dias.

(E eis que uma garota muito bonita sorri para mim. Será que a minha vida está dando uma virada por completo?! Será que o meu futuro tão desejado está finalmente sendo construído?!)

Vinte e um dias.

Vinte e dois dias.

(Percebo que as qualidades que eu acreditava ter são todas ilusórias e a única coisa concreta é que as qualidades que realmente tenho são inúteis.)

Vinte e três dias.

(A garota bonita que me sorrira antes nunca mais se voltou para mim e, quando olhei para ela na última vez, havia beijado um rapaz que eu passei a odiar naquele preciso momento, embora nunca o tivesse visto antes.)

Vinte e quatro dias.

Vinte e cinco dias.

(Sempre a mesma rotina, nunca conseguindo quebrá-la. Por mais esforços mentais que eu entabule, nunca consigo sair da ginástica mental.)

Vinte e seis dias.

Vinte e sete dias.

(Chega! Começarei uma dieta neste exato momento! Nunca conseguirei ser o que desejo tanto ser se eu não fizer nada e, a partir de amanhã, farei a minha dieta e exercícios físicos.)

Vinte e oito dias.

Vinte e nove dias.

(Vi mais uma vez os meus sonhos se dissolvendo diante de mim e não aguentei: saí da dieta. Mas é só uma vez. Além disto, não fiz a minha caminhada, pois estava muito frio. Mas é só uma vez.)

Trinta dias.

Trinta e um dias.

Trinta e dois dias.

(Decidi sair da dieta mais uma vez ao perceber que estou sempre solitário e que cada lufada de ar que dou me é cada vez mais difícil. Mas juro que é só uma vez. Além disto, não caminhei hoje porque estava muito cansado. Mas juro que amanhã eu volto a andar!)

Trinta e três dias.

Trinta e quatro dias.

Trinta e cinco dias.

(Escrevo um texto que irá revolucionar a literatura nacional.)

Trinta e seis dias.

(Saio mais uma vez da dieta e percebo que isto não está funcionando. Além disto, para que ficar me esforçando para prolongar o máximo possível a minha vida terrível e vazia?! Vou abandonar os exercícios e a dieta de vez: prefiro viver feliz até os trinta a ter uma vida miserável até os noventa!)

Trinta e sete dias.

Trinta e oito dias.

Trinta e nove dias.

(Tudo se repete: a mesma insipidez, a mesma antipatia, os mesmos movimentos reflexos. Será que eu sei o que estou fazendo aqui? Será que eu realmente sei o que estou fazendo e o que estou buscando?)

Quarenta dias.

Quarenta e um dias.

Quarenta e dois dias.

Quarenta e três dias.

(Antes eu costumava ler um livro ou ver algum filme para dissipar o vazio que existe em mim. Hoje em dia, não sinto mais vontade de fazer isto: prefiro ficar aqui, no meu sofá, entregue aos meus pensamentos doidivanos, enquanto afogo em minha própria imaginação. Como é bom ser amado de mentira, quando, de verdade, nem você gosta de si mesmo!)

Quarenta e quatro dias.

Quarenta e cinco dias.

(Preciso fazer uma prova importante. Será que eu passo?)

Quarenta e seis dias.

Quarenta e sete dias.

Quarenta e oito dias.

(Fiz a prova, acreditei que fui bem e fui reprovado, como sempre. Eu podia estudar mais, me esforçar mais, mas para quê?! Para que continuar lutando, sendo que eu não conseguirei ser absolutamente nada na vida, já que, por mais que eu possa ser inteligente, isto não é o bastante?!)

Quarenta e nove dias.

Cinquenta dias.

Cinquenta e um dias.

(Na outra prova, fui o melhor da turma. Mas o que isto significa? Significa somente que eu consegui decorar bem algumas inutilidades. Os outros não chorarão a sua derrota porque eles não perderam. Eu não comemorarei a minha vitória porque eu sei que ela é ilusória. E, no final, a verdade sempre ganha.)

Cinquenta e dois dias.

Cinquenta e três dias.

Cinquenta e quatro dias.

Cinquenta e cinco dias.

(Eu realmente não aguento mais suportar o peso dos meus próprios ombros. Não aguento mais levar adiante algo que não vai dar certo. Por que resistir? Por que continuar lutando?)

Cinquenta e seis dias.

Cinquenta e sete dias.

Cinquenta e oito dias.

Cinquenta e nove dias.

(Já faz tanto tempo que eu não saio… Como é ter a pele beijada pelo Sol? Faz tempo que não sinto esta sensação!)

Sessenta dias.

Sessenta e um dias.

Sessenta e dois dias.

(Está tudo acabado: mato-me com o que tiver em casa, e não me interessa se a morte será horrível! Mas… Não… Sinto o meu corpo revirar com a ideia da não existência. Sinto o meu mundo girar, e rodopiar e rodopiar. Não… Não vou aguentar fazer isto! Não!)

Sessenta e três dias.

Sessenta e quatro dias.

(Tive cinco pensamentos suicidas hoje e simplesmente fiquei paralisado. O que você está esperando?! Morrer é fácil, viver é difícil! Quem é que vai sentir a sua falta?! Quem é que vai?! Ninguém se importa com você, ninguém nunca te deu a mínima importância! Você não tem amigos, nem namorada, nem uma família, e a única coisa que consegue fazer é sonhar, cada vez pior, com o que você nunca poderá ter! Então, por que continua resistindo?! Por quê?!)

Sessenta e cinco dias.

Sessenta e seis dias.

(Chega! Já não aguento mais! É a minha hora: farei uma carta longa fazendo diversas apologias e críticas que só vão deixar mais evidente a minha fraqueza! Mas isto não importa. Na verdade, nada importa mais.)

Sessenta e sete dias.

(Onde estou? Ah, não! Fracassei! Ainda estou vivo! E olhe só como estas pessoas te encaram! Elas queriam que você morresse, queriam sim!, e te reprovam por ter falhado na sua missão mais simples! Lembre-se: morrer é fácil, viver é difícil.)

Sessenta e oito dias.

Sessenta e nove dias.

Setenta dias.

(Finalmente liberado, mas cansado de ter que dar tantas explicações a médicos que não dão a mínima para mim. Afinal, que lhes importa se eu me mate ou não?! Que diferença isto faz?! Eles sabem disto, sabem disto! Apenas estão seguindo o roteiro: são pagos para que eu sobreviva, por mais que me odeiem! E estas pílulas?! Nomes esquisitos, sempre femininos, por que será?! Ah!… Pelo menos… Se eu quiser me matar, terei com o quê. Mas a quantidade é tão baixa e eu sou tão volumoso que sinto que não posso ter uma overdose. Enfim… Continuemos.)

Setenta e um dias.

(Descobriram o que fiz — aliás, fiz um alarde imenso! —, e todos os olhos miseráveis destes seres detestáveis se voltam contra mim. O que eu fiz para eles para que me odeiem tanto?! Ouço baixinho: “Por que você fez isto?”. E eu respondo, com naturalidade: “Porque estou cheio do meu vazio”. E os olhares continuam. E os professores continuam me perguntando “Está tudo bem?”, e eu, é claro, sou forçado a responder “Sim.”, porque não posso expor a ninguém o que sinto. Não posso demonstrar fraqueza. Não posso…)

Setenta e dois dias.

Setenta e três dias.

(Deixei de ser o centro das atenções: tudo volta ao normal, o que nunca pode ser bom. Felizmente, as pílulas parecem estar fazendo efeito e eu não me sinto tão fraco. Talvez a vida seja boa! Talvez…)

Setenta e quatro dias.

Setenta e cinco dias.

Setenta e seis dias.

(Tenho que voltar ao psiquiatra e, além disto, marcar uma consulta com uma psicóloga, porque invariavelmente terá de ser mulher. E eu vou e conto ao médico como os meus dias se passaram e ele ouve com um interesse tão vazio quanto a minha vida. Só com dificuldade percebo isto e paro de falar. Ele me diz “Continue.”, mas querendo dizer “Ainda bem!”. E eu, então, simplesmente digo: “Estou cansado de dizer as mesmas coisas. Drogue-me e fingirei bem que tudo está bom.”. Ele aquiesce com alívio. “Finalmente um paciente com um pouco de vergonha na cara!”, ele pensa, presumo eu.)

Setenta e sete dias.

Setenta e oito dias.

Setenta e nove dias.

(Consulta marcada e eu fui, já que paguei com o meu dinheiro, que não é meu, é claro. Disse o que precisava dizer e ela fingiu muito bem me entender, dizendo-me, ao final, algumas obviedades nas quais eu nunca tinha pensado. Pago com as mãos trêmulas, como se ela fosse uma espécie de prostituta de atenção, uma invenção pós-moderna e bastante rentável. Viva a solidão!)

Oitenta dias.

Oitenta e um dias.

Oitenta e dois dias.

(Parece que o meu humor está bem estabilizado, mas por que continuo acreditando que tudo dará errado? Ah!… É mesmo: tenho muitas evidências disto. Enfim… Prossigamos.)

Oitenta e três dias.

Oitenta e quatro dias.

Oitenta e cinco dias.

Oitenta e seis dias.

(Tenho mais uma crise de choro, pois o peso do passado não pode ser esquecido com a mesma facilidade que as alegrias. Mas foi só um dia! Foi só um dia…)

Oitenta e sete dias.

Oitenta e oito dias.

(Olho-me no espelho e o que vejo me repugna: desvio rapidamente o olhar e volto aos meus pensamentos. Observo a casa e não noto nada de novo. Penso na vida e não observo nada de novo. O que foi que mudou nesses últimos dias?! Perdi dinheiro e tempo, e nada mais! Pílulas?! Para quê?! Psicóloga?! Para quê?! Devo ser um homem de verdade e encarar os meus problemas sem a ajuda de ninguém! Conquistarei o mundo e todos ouvirão o meu nome e o respeitarão, inclusive e especialmente os inimigos!)

Oitenta e nove dias.

Noventa dias.

Noventa e um dias.

(Nada muda, nada dá certo: luto, luto, luto, mas nada funciona! Para ser o que desejo ser, tenho que ser outra coisa. E, para isto, tenho que me violentar até que eu me mate e ressurja transformado. Mas isto é impossível! É impossível…)

Noventa e dois dias.

Noventa e três dias.

(Peguei mais cartelas do meu remédio, embora não tenha tomado a anterior. Não sei se vou precisar delas para o grande dia, que não sei quando é, mas, se eu me matar, que seja algo suave e tranquilo.)

Noventa e quatro dias.

Noventa e cinco dias.

Noventa e seis dias.

(Tudo volta, tudo volta! Tão terrível quanto antes, ou até pior! É a maré que vai me solapando aos poucos, mas, já neste momento, sinto que não aguentarei mais! Os meus sonhos foram destruídos, as minhas ilusões deram lugar a uma realidade insossa, em que nada consegue ser bom! Tenho medo, sempre tive medo, e quanto mais eu tento vencê-lo, mais ele me vence! E… Quem é que se importa comigo?! Não tenho ninguém: sou um aborrecimento para todos! E o futuro… Não tenho habilidades, não sou particularmente inteligente e parece que todas as minhas escolhas redundam em fracasso, então… Normalmente eu tentaria afastar estes pensamentos de mim, como um príncipe encantado afugenta o monstro da donzela em perigo, sendo que eu sou os três ao mesmo tempo, mas o que fazer quando não há esperança?! Ela está morta, enterrada, e, se estou vivo até agora, é por pura preguiça e medo. Mas sinto que isto não vai durar por muito tempo: o vazio cobra um preço muito alto. Não sou forte o suficiente para pagá-lo.)

Noventa e sete dias.

Noventa e oito dias.

Noventa e nove dias.

Cem dias.

(No meu aniversário de vida e de morte, um brinde aos fortes que ficaram e aos fracos que se vão! Tomo várias pílulas e espero, serenamente, o sono forte chegar, os meus sentidos ficarem entorpecidos, tudo se desfazer e uma enorme escuridão e frio chegarem, até que tudo se vá e eu vá também. O livro que irá revolucionar a literatura nacional é o meu diário, o diário do suicida, o único que diz tão cruamente a verdade que ninguém quer saber. E sinto… Sinto o mal-estar me apoderando! Sinto o mundo se desfazendo num grande carrossel! Vejo as luzes girando, girando, girando, enquanto que os sons vão se confundindo, transformando-se numa única nota, que não consigo descrever. O meu rosto se encharca de lágrimas, mas eu esboço um sorriso que, quiçá pela primeira vez em toda a minha vida, é sincero. E as luzes da ribalta se apagam. O espetáculo da vida se encerra.)

Cento e um dias.

(Acordo com uma sensação que é de extremo estupor, mas, pouco a pouco, a realidade vai se refazendo, ganhando os seus matizes ordinários. Não consigo falar, mas posso discernir, com dificuldades, alguns rostos conhecidos, uns muito novos, outros já mais antigos, enquanto ouço as enfermeiras reclamando da multidão. Parecem sorrir, talvez compadecidos da minha derrota, mas não sei dizer se é pela que foi imposta a mim pela vida ou pela morte. Sinto, pela primeira vez em tanto tempo, uma felicidade genuína, algo de verdadeiro e bom. Contudo, também posso discernir a enfermeira dizendo, do lado da cabeceira do meu leito: “Ainda devo pôr morfina esta noite?”, com uma resposta que não consigo entender. Morfina… Outra droga com nome de mulher! E eu fico estirado, amarrado à cama como um louco, enquanto sinto a falsidade mais pura se desenvolver à minha frente. Aguento a tudo com muita felicidade e até os meus pensamentos de que tudo voltará a ser como antes, e de como isto não é bom, são felizes. Porém… “Eles disseram que vão cortar a morfina. É…”. E, como não podia ser diferente, aguento a certeza de que vamos começar tudo de novo com felicidade. E sejamos felizes, até que o efeito da nossa droga acabe e a realidade volte a ser o que ela sempre foi.)

Um dia.

Dois dias…

4 comentários em “[O diário de um suicida]

  1. Olha, eu ia escrever um puta textão mas não é necessário. Digo aqui apenas: Contei os dias como ponteiros marcados e ao recomeço dos dias eu deixei novamente livre as horas. Digo também: Eu me vi em cada virgula, em cada ponto, em cada contagem. Eu era tudo o que você escreveu, eu fui a derrota, eu fui o tempo que por 2 minutos sobreviveu.

    Alias, postarei seu blogue e este seu tempo como indicação de leitura em meu blog e em minhas redes sociais. O mundo precisa ler seus escritos.

    Até breve!

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    1. Muitíssimo obrigado, Maria!

      Muito obrigado por ter gostado do meu texto. Acho que esta foi a coisa mais sincera e mais direta que já escrevi. Felizmente, tenho tido dias muito bons desde quando o escrevi, então, ainda bem, já não me identifico mais com a minha própria obra. De qualquer forma, a deixo como uma forma de alerta contra a depressão, uma doença que eu tenho e que é tão maldita e silenciosa.

      Muitíssimo obrigado novamente,
      Marcos Paulo Barbosa da Silva.

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